Sexta-feira, Novembro 06, 2009

A visita do Pastinha

A visita do Pastinha


Luiz de Aquino


Os anos correm, céleres. Renovam a natureza, transformam a paisagem, marcam-nos a pele e os pelos, adormecem lembranças. Mas são os anos passantes que depuram-nos os sentidos e os sentimentos, permitindo-nos a maturidade seletiva a que os contemporâneos mais moços chamam de terceira-idade e eu teimo em repetir velhice.

Gosto de ser velho. Os mais velhos que eu censuram-me, dizem que me antecipo ao tempo. Mas já transpus o “cabo das tormentas” dos sessent’anos, ou seja, o IBGE qualifica-me velho, ainda que eu continue a sonhar como se vivesse uma eterna adolescência.

Um amigo da geração anterior, Isócrates de Oliveira, filósofo e diplomata, nativo de Pirenópolis, dizia, a mim e tantos outros, que “não é necessário envelhecer”. Gostei disso. E acrescento que, de fato, não é necessário envelhecer, ainda que os dias se acumulem em anos que se somam e nos roubam a melanina dos cabelos.

Entendo bem o saudoso Isócrates. De fato, é desnecessário envelhecer-se, porque os sonhos não envelhecem. E viver é sonhar, sempre. Quando moços, sonhamos com o futuro; na casa dos “genários”, sonhamos até mesmo com o que já vivemos. Foi assim que, retornando ao lar quando a tarde ia quase a meio, deparei-me com uma notícia e dois documentos: Mauro Jaime, meu velho amigo Pastinha, esteve aqui. Mary Anne tentou me chamar, mas o celular cumpriu o que se espera dele, ou seja, falhou.

Embeveci-me com os caprichos do irmão das noites. Mauro Jaime, que, feito eu, tem os pés na vetusta Meia-Ponte do Rosário (nossa amada Pirenópolis), sabe tanto quanto eu que boêmios não se fazem nem se tornam: nascem. E ambos nascemos boêmios (amantes da noite que jamais faltam ao trabalho quotidiano, ainda que a jornada de ofício comece nas primeiras horas matutinas). Boêmios são pessoas responsáveis e zelosas, apenas gostam da noite.

Mauro Pastinha deixou-me um mimo valiosíssimo: um cartaz de 1987, dando conta de que Anete Teixeira, que me foi companheira e amada naqueles anos em que nos fazíamos realmente adultos, homenageava Elis Regina no quinto ano do passamento da melhor cantora brasileira de todos os tempos. À minha mulher, ele disse, bem ao seu modo faceiro, que receava causar um constrangimento conjugal, trazendo-me lembrança da ex-companheira. Mary Anne disse-lhe que o passado é vida que não se apaga.

Mauro trouxe-me, ainda, outro presente: um DVD com que me agrada um novo amigo, ainda não visto por mim, mas com quem já permutei notícias e informações, o radialista e jornalista José Cunha. O disco, que vou ver já-já, contém um especial de ninguém menos que Toquinho, instrumentista e compositor da fina flor do nosso cancioneiro.

Eu, que vinha de palestras a estudantes da rede municipal de ensino, feliz por intercambiar com as crianças, sou, nesta quinta-feira (5 de novembro) em que escrevo para o domingo, privilegiado com tantos agrados. Lamentei não ter me encontrado com Mauro, mas já me comprometo com ele: vamos renovar o bate-papo, regando-o com goles gelados de boa cerveja.

Como antes. Como sempre. Como gostamos de conversar.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Escrito na testa (*)

ou

¿Escrito en la frente? (Cabeza humana)


Luiz de Aquino


Personas sensibles perciben, por el mirar o por la secuencia de gestos, lo que pasa en el alma de los demás. La percepción del alma ajena instruye mucho conocimiento. Pero todos nosotros pensamos ser capases de comprehender de todo, ¿no es mismo? ¿Cuál es la edad de los proverbios? Algunos si pierden en la historia, están en la Biblia; otros surgieron en eterno caminar de la humanidad, rompieron fronteras, sobrevivieran al tiempo vital de lenguas hoy tenidas por “muertas”.

¡Sí… Las ideas sobreviven hasta mismo al idiomas!

La verdad es que ponemos nuestra opinión en todo.

Curiosamente, cuanto más estudiamos un asunto, cuanto más domínanos un tema, menos opinamos sobre él. Tengo amigos que les gustan dar consejo sobre todo. Otros, de buscar defecto en todo, me incluyo entre estos. Un cuadro tarto, en la pared, una letra muerta en lugar incorrecto, la completa ignorancia de la regencia y de la concordancia (cuando profesados especialmente por profesores y periodistas, duele más aun de oírse), la corbata tarta…Ah, la gente percibe ¿no es verdad?

Me gusta recordar los tiempos de la escuela, cuando estudiábamos Platón y su sistema de educación. Parecía cruel aquello del Estado tomar las niños (hijos) de los padres, preparándolos para la vida social, sujetándolos a filtros temporarios profesionales liberales o políticos, las que detuviesen mayor escolaridad (eso sería independiente de la voluntad de las personas, pero seleccionado entre los de mejor aprovechamiento.

En los últimos veinticinco siglos, Platón se mezcló muchas veces en la tumba (para evocar un antiguo dicho popular). O, en la posibilidad de la reencarnación de las vidas posteriores deben tener aprovechado su espíritu de filósofo. ¡Pero cuanta cosa esdrújula se ve por ahí, si considerarnos que el sabio griego estaba correcto! Y debía estar, o no sobrevivieran dos mil quinientos años por sus ideas.

“De médico y de loco, todos nosotros tenemos un poco” dice la sabiduría milenar. Los médicos se multiplicaron en especialidades y mismo en profesiones. En torno de la medicina, surgieron enfermeros, farmacéuticos, bioquímicos, veterinarios, psicólogos… No soy capaz de enumerar todos los oficios derivados, más puede se decir que desde los nutricionistas hasta los peluqueros y los pedicuros (ahora llamados de podólogos) son creas de la medicina.

Pero la petulancia de los “sabios de esquina” es mucho mayor que la simplicidad científica de un filósofo griego. Eso de decir que

que policial que mata bandido merece medalla y dar poder de juzgamiento instantáneo es incorregible a un agente a que compete el vigilar ostensivo, a represión a disturbios y encargos de investigación.

No necesitamos más de jueces promotores y abogados. Si es verdad que bandidos tras escrito en la frente esa condición ¿Será que los policiales saben leer eso? ¿O apenas los deputados electos se saben por allá cuáles artificios?

Escribieron algo en mi frente (en la cabeza), ciertamente. ¿Lo que será? ¿Poeta? ¿Pujador de asunto? ¿Intransigente? ¿Intolerante? ¿Cariñoso?

¡Todo mentira, nadie tiene nada escrito en la frente! Se lo tuviésemos ciertamente tendríamos políticos de mejor calidad. Poeta también, es claro. Pero nadie necesita de votos para ser poeta.

Se los policiales supieran leer eso, aquello brasileño asesinado por la Scotland Yard estaría vivo.


Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) es escritor, membro de La Academia Goiana de Letras.


(*) Esse texto, traduzido pela professora Lindalva Costa (de Goiânia), foi publicado aqui no dia 5 de setembro de 2009. Posto-o novamente como forma de agradecer seu carinho e por ter-me apresentado (virtualmente ao colega da argentino poeta argentino Cesar Ruben Reyna, a quem também homenageio. Luiz de Aquino

Sábado, Outubro 31, 2009

O mico na crítica

O mico na crítica


Luiz de Aquino


Esta semana, passeei meu espírito por um Brasil especial, o Brasil das artes. O Brasil das bandas do interior e das escolas fundamentais e médias, com os tradicionais uniformes e a formação militar (as bandas, por algumas décadas, restringiram-se ao ambiente dos quartéis militares).

Em 1967, um moço mal entrado em sua faixa dos vinte anos, cantou num festival: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou / pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Esses versos, acasalados com a melodia num arranjo de metais e percussão, reconduziu a nação brasileira às bandas que, atualmente, tentam (e conseguem, felizmente) ressuscitar pelo Brasil afora. Mas “A Banda”, quando apareceu, sofreu um comentário infeliz de um dos críticos que, na época, constituíam o júri do programa de Flávio Cavalcante. Mister Eco (era o pseudônimo do crítico musical) condenou a música, arrematando com a frase: “Banda não canta. Banda toca!”.

Como se vê, o crítico não aceitava a metáfora. Mas, apesar dele e de sua frase, o Brasil inteiro virou banda e cantou coisas de amor. Éramos uma imensa banda de quase noventa milhões de músicos naqueles anos finais da década em que tudo mudou. Mas existem críticos e Críticos. E separá-los é uma função “crítica” que, nós, os mortais menores, temos de fazer, tornando-nos “críticos de críticos”.

Vejam o que contou o jornalista, professor de Literatura e cronista exemplar Sinésio Dioliveira:

“Outro dia li em um site as críticas de alguém sobre o filme “O curioso caso de Benjamin Button”, dirigido por David Fincher e que tem o ator Brad Pitt vivendo o papel de Benjamim. Tal filme é baseado num conto escrito em 1922 por F. Scott Fitzgerald. A mutamba do crítico comeu feio na parte do nascimento do protagonista da história: Benjamin, que nasceu velho, já com 80 anos de idade. Para esse alguém, “o nascimento fugiu da verossimilhança” 
(da crônica “Filme e livro possuem belezas distintas”, no DM, quinta-feira, 29 de outubro de 2009).

Curiosamente, tanto Mister Eco (em 1967) quanto esse “alguém” que Sinésio citou são pessoas que vivem disso, de criticar. É sua profissão, ou, ao menos, seu ofício diletante (e geralmente somos menos imperfeitos nos nossos ofícios diletantes do que no desempenho das nossas profissões). Alguns desses críticos são professores em salas de aula, ensinando errado.

Todos somos alvos fáceis da crítica. Basta-nos atuar na expor ideias e opiniões para, de imediato, sermos avaliados. Eu, que sou leitor há sessenta anos, (aprendi a ler aos quatro anos e nunca mais parei), seleciono, dentre o que leio, o que me agrada, o que me ensina e o me dá prazer.

Nunca procurei Cervantes, Camões, Castro Alves, Machado, Lins do Rego, Jorge Amado, Moacir Sclyar, Bernardo Élis, Lya Luft, Adélia Prato, Gilberto Mendonça Teles, Afonso Félix, Brasigóis Felício, Maria Helena Chein, Heleno Godoy, Décio Filho ou seja lá quem for dentre os meus preferidos para dizer-lhes o que escrever. Apenas os leio.

Mas há quem me procure para “me orientar”.

Gente, isso ofende. Dói, até! Em lugar de dizer-me o que escrever, essas pessoas deviam, sim, escrever sobre o que gostam. Estranhamente, são as pessoas que querem ler sobre as flores, o amor de olhares, a doçura da resignação religiosa. Rejeitam em mim o cidadão comum, o homem que cobra dos poderes e das instituições o procedimento que atenda àquilo de que a sociedade carece.

Fico mais para Geraldo Vandré. Eu falo das flores, mas mostro o canhão.


Luiz de Aquino é jornalista e escritor (poetaluizdeaquino@gmail.com), membro da Academia Goiana de Letras.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Goiânia, 76 anos

Entrevista que concedi a Michelle, da TBC/Cultura, Goiânia, no aniversário da cidade (ocorrido a 24 de Outubro).

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Luiz Fernando Prôa: Pai!

Luiz Fernando Prôa: Pai!

Eu com o poeta Luiz Fernando Prôa,

em evento no Bar-Teliê, Ipanema.


Luiz de Aquino


O homem falando ao Fantástico chamou-me a atenção pela densidade do discurso. Era um pai em desespero, e meus olhos não acolheram a figura, somente meus ouvidos captavam a dor do homem. O dia seguinte, a segunda-feira, anteontem, 26 de outubro, marcou-se pelos comentários. Em todos os lugares, comentava-se do pai que chamou a policia.

Luiz Fernando Prôa é o pai do Bruno. Bruno, 26 anos, é músico. Há anos, depois de tomar gosto pelo álcool, experimentou outras drogas, entre elas as drogas “pesadas”. Consta que, no último sábado, ele matou, por asfixia, Bárbara Shamon Calazans, de 18 anos, sua amiga (ou namorada).

O fato mexeu profundamente comigo. Agradeço a Deus, todos os dias, por ter conseguido criar a Elia Maria, o Léo e o Fernando distantes das drogas e apegados a princípios morais embasados no respeito ao próximo. E todos os dias peço a Deus que mantenha o Lucas na mesma linha de conduta. Amém! Essas frases, ouço-as todos os dias de muitos amigos. E ouço também outros muitos amigos a pedir forças a Deus para que consigam trazer de volta alguma ovelha desgarrada.

Em todos os tempos, sabemos, houve o choque das gerações. Nós, os nascidos nas décadas de 1940 e 1950, pagamos caro por termos reagido com mais vigor. Realizamos a tal “revolução sexual”, com o inestimável apoio científico-tecnológico dos laboratórios farmacêuticos que nos deram a pílula anticoncepcional. Criamos novos ritmos, novas danças, novos costumes e acreditamos nos princípios revolucionários de Educação de Summerhill, rompemos, ao educar nossos filhos, com os limites tradicionais (e nada tínhamos para pôr no lugar). Agora, nossos filhos sentem que é preciso impor limites...

Bem, não é propósito desta tarde, momento de produzir a crônica de quarta-feira, chorar sobre o passado e as falhas. Todos falhamos: pais, amigos, educadores, executivos, operários, artistas, autores de textos e de músicas, médicos, policiais, membros da Justiça e do Ministério Público... Mas falharam mais ainda os governos, em todos os níveis e em todos os mandatos. O imediatismo das campanhas nos anos pares, a busca feérica pelo voto (e, mais ainda, pelas verbas sem saber de onde vêm) vendaram olhos e taparam ouvidos. Mas isso não é Brasil, gente! É mundo. Ou melhor, é Mundo! Esta geração de reis, de primeiros-ministros, de presidentes, de ditadores e até mesmo de religiosos com poder político é a grande culpada. Culpada por omissão.

E, assim, volto a tentar falar no motivo. Não quero buscar, na vida do Luiz Prôa, o momento do erro. O instante da omissão. O instante a mais de sono que possibilitou a fuga de Bruno. Prefiro recordar a emoção do Luiz ante a notícia da gravidez de seu primogênito, o momento em que se soube o sexo do bebê, as lágrimas do pai ante o choro do recém-nascido. Quanta emoção, meu poet’amigo! Quantos planos, quantos versos, quantos projetos de vida! Sei que muitos foram alcançados (afinal, Bruno é artista), mas num dado momento a luz piscou, fez-se um escuro ágil, quase imperceptível, e a escuridão marcou seu ponto. A gente, então, esquece os sonhos e planos. Arregaça as mangas e vai a luta, tenta trazer de volta o que se nos foge, como um pescador insistente a esticar e recolher a linha. Mas filho, meu Luiz Poeta-irmão, não é peixe... Nem sempre a nossa habilidade é vitoriosa. E, num momento de blecaute outra vez, acontece a tragédia.

Há alguns anos, troco informações e versos com Luiz Fernando Prôa. E um dia, há uns dois anos, tivemos um primeiro encontro, um sarau no Bar do Adão, em Botafogo, Rio de Janeiro. Alguém disse meu nome em voz alta, Prôa ouviu e reconheceu-me ali, ao lado. Anunciou-me para um poema e o poeta Cairo Trindade anunciou-me como “um poeta da Academia Goiana de Letras” (Cairo estava surpreso: não viu em mim o protótipo do poeta-acadêmico, sisudo e parnasiano).

Foi só o começo. Luiz Prôa conduziu-me a vários saraus poéticos pelo Rio afora: Santa Tereza, Teatro Gláucio Gil, o Bar-Teliê em Ipanema e ainda aquelas rodas de poesia em torno da estátua de Carlos Drummond de Andrade. Prôa é, de fato, um poeta e um ativista cultural incansável, sempre com a câmera em punho, fotografando e filmando, declamando e arregimentando o “poetariado” brasileiro para os saraus cariocas.

A dor, meu amigo, não é só sua. É nossa. É dos pais e mães que sofrem. É a dor dos pais e mães que perdem filhos por balas perdidas, por ação de ladrões, por efeito das drogas ou pelos acidentes de trânsito. É a dor dos que, como você, perdeu um filho para mais um subproduto da coca. A dor, meu querido Luiz Fernando, é nossa. É dor de poetas que se irmanam com você.

O triste é sabermos que a nossa dor não reduz a sua.


Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

Sábado, Outubro 24, 2009

O tempo e o tédio

O tempo e o tédio


Luiz de Aquino


A tarde levava o sol céu abaixo, lenta e persistente. O homem vinha de um almoço sem-graça, preguiçoso como a própria tarde. Não sorria, não via razão para isso; mas também não estava triste. Vivia, apenas. Esperando o dia que se arrastava para o próprio fim. O homem esperava a noite.

Existe isso de se esperar alguém, ou um outro tempo. A tarde, pensava o homem, não lhe traria nada. O jeito, pois, era esperar a noite.

– A noite é promissora. Alvissareira. A noite, ainda que solitária, é benfazeja. Já o dia, não. O dia é falso de princípios. Traiçoeiro. O dia é o tempo em que chegam as contas a pagar, os entregadores mal-humorados, os telefonemas de negócios. A noite é o tempo da bonança, tempo das mulheres enfeitadas, das boas músicas, das luzes coloridas. A luz do sol é um tédio – pensava o homem.

E assim, desinteressado das horas quentes da tarde sem-graça, saiu de casa. No carro, não ligou o rádio, driblou o tráfego das ruas e alcançou a rodovia. Fazia isso sempre que achava a vida sem atrativos. Ou os momentos em que a vida não lhe dava alegria. Tomou a pista à direita e, menos de um quilômetro depois, retornou e rumou ao norte.

Lembrou que aquele era um hábito antigo, dentre os vários que cultivava. Mas há tempos não o praticava. Viajar aqueles quarenta e dois quilômetros era o que fazia todas as vezes em que se sentia só. Ou seja, todas as vezes em que brigava com a mulher. Meia hora e lá estava ele, ao pé de Silvana, carinhoso e malemolente, cheio de palavras escolhidas e carinhosas. A moça retribuía as falas e carícias, desmanchava-se em dengos e, satisfeito, o sujeito tomara a estrada de volta.

Viveram seis anos assim. Seis anos e quatro filhos. Filhos que ele nunca registrou, alegava a situação de casado, impedido por lei de registrar filhos ultra-leitos. Silvana acreditava. Para ela, ele era um homem sábio, cheio de receitas e leis. Até um dia, porém. É que, certa vez, enquanto ele viajava com a família em férias, curtindo litoral, uma das filhas (eram dois casais) adoeceu.

Silvana costumava acioná-lo nessas ocasiões, e ele sempre cuidava de tudo. Mandava que levasse a criança ao médico, ele chegaria logo, logo, nada faltaria às crianças. Nada, a não ser a existência oficial do pai. O registro. O nome para constar nas carteiras de identidade.

O jeito foi ir ao posto de saúde pública.

A atendente conhecia a moça e as crianças. Sabia de sua história de vida. Pediu cartão, certidão, qualquer coisa assim. E só então soube que aquelas crianças não eram registradas. Silvana explicou que o pai não podia, etc. A moça da recepção fez uma cara de muxoxo. Em seguida, informou a Silvana que desde há muitos anos essa coisa tinha sido revogada, que qualquer pai podia, sim, registrar seus filhos.

Conversas mais, detalhes surpreendentes, orientações várias e Silvana saiu dali decidida. Buscou a Justiça, conseguiu registrar os quatro filhos e sumiu da vida do sujeito. Agora, vítima do marasmo de uma tarde de novembro de sol, lá vai ele. Sabe onde chegar... Vai ver Silvana. Sabe como conquistá-la, reconquistá-la. Certamente, teriam algumas horas de amor. Desta vez, não descuidará. Tomará cuidados para não engravidar a moça outra vez.

Chegou. Consultou tudo em volta. Viu luzes na casa. Chamou. Ninguém atendeu. Insistiu na campainha. Uma vizinha saiu à porta, reconheceu-o e contou, Silvana viajou pela manhã, a luz estava acesa para disfarçar. A moça e as crianças só voltariam daqui e alguns dias.

O homem foi embora. Um anjo chegou primeiro.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Goiânia: argamassa, asfalto e livros

Goiânia: argamassa, asfalto e livros


Luiz de Aquino


O poeta Guido Dutra, brasiliense de Anápolis, envia-me um apanhado de fotos da Normandia. Não são fotografias comuns, mas flagrantes colhidos nos dias que se seguiram à ocupação, aquele que passou à História como “O Dia D”. O capricho está nas tomadas atuais, focando os mesmos cenários, nos mesmos ângulos das imagens de maio de 1945.

Senti-me triste. É que, nestes 46 anos de presença em Goiânia, cidade que festeja 76 anos de sua Pedra Fundamental (e há 72 anos tornou-se a sede do governo estadual), vi muitos prédios demolidos sem qualquer respeito ao que, no nosso caso, formaria a História visual da cidade. Pedro Wilson, quando prefeito, reconstruiu os jardins da Avenida Goiás, devolvendo a Goiânia uma de suas mais belas imagens. Na década 1970, o coreto da Praça Cívica foi transformado num monstrengo inexplicável, mas o prefeito Rubens Guerra o restaurou, recobrando a forma original. Penal que os vândalos o depredam várias vezes ao ano, e a Prefeitura tenta preservá-lo.

A França buscou restaurar a Normandia, após a Guerra Mundial, respeitando os prédios bombardeados, devolvendo-lhes as condições de habitação e proporcionando, outra vez, um belo visual. Em Goi... Desculpem! No Brasil, essa vontade fica apenas nos corações dos poetas e arquitetos sensíveis, porque existem os que preferem demolir tudo para construir outra vez, modernizando para enriquecer-se. Dói-me ver que uma propriedade do Exército Brasileiro, a casa onde viveu o marechal Cândido Rondom, no Rio (Rua Mata Machado, em frente ao Maracanã) é, agora, um esqueleto totalmente abandonado, quando devia ser um patrimônio histórico.

Se a memória física (patrimonial) não é preservada, a gente briga e se esforça para manter a história das pessoas. Como me empenhei no sentido de fazer valer a memória do contista José J. Veiga, que, vivendo fora de Goiás desde os seus vinte anos, deixou clara a sua vontade de ser lembrado na própria terra. E coube ao SESC de Goiás acolher e preservar seu acervo, a meu pedido. Antes, porém, amigos da desgraça tentaram destruí-lo. Os livros, móveis e objetos, depositados num cômodo de confortável e significativa casa no centro de Goiânia, foram parar no porão, para serem destruídos pela umidade e as traças. O SESC restaurou tudo.

Livros, livros... Já tivemos valiosas livrarias na cidade.Na Rua 4, o Bazar Municipal, da família Scartezini; na Rua 8, a Figueiró, dos Figueiroa; na Rua 2, e depois na Rua 3, a Livraria Brasil Central, depois a Universitária, a Planalto... Mas o Bazar Oió foi, seguramente, o mais emblemático. Era a livraria de Francisca Hermano e Olavo Tormin.

Lá pelo final de 2007, recebi e-mail de uma jovem, Lúcia Tormin Mollo, de Brasília. Neta do casal Francisca e Olavo, a moça concluía Jornalismo e desenvolveu o seu trabalho de conclusão no resgate da história da livraria, a única no Brasil que a famigerada ditadura dos generais linha-dura fechou no Brasil. Lúcia veio a Goiânia várias vezes, visitou escritores e ex-funcionários, ouviu professores e inúmeros amigos de seus avós. O trabalho ficou muito bonito, estimulei-a a publicá-lo, e o livro já está em ponto de lançamento, editado pela competência de Iuri Godinho, da Contato Comunicação.

Enquanto espero o lançamento, sigo minha rotina de escriba e futriqueiro das coisas de letras. Publiquei mais um livro, trabalho na conclusão de outros dois e tenho mais dois em andamento, enquanto sonho mais e mais. E atendo a quem me procura: escolas, veículos de notícia, colegas escritores, professores, curiosos...

Na terça-feira, 20, deste outubro, ou seja, ontem, a TBC, ou, como prefiro dizer, a TV Brasil Central publicou entrevista minha à bonita e ágil Michelle, repórter competente. Falei de escritores e procedimentos literários de uma Goiânia antiga. Antiga? Coisas de sessenta ou cinquenta anos passados, apenas. Goiânia atravessará alguns séculos para ser chamada de antiga. Entrevistas são ocasiões em que o entrevistado fala muito e acaba dizendo pouco. Por exemplo: citei dezenas de grandes escribas desta cidade, mas a edição não tem como publicar tudo. E, fatalmente, posso ter esquecido alguns nomes importantes – tal como posso, nesta crônica, omitir livrarias de peso na vida da cidade –, mas penitencio-me sem culpa. Outros cobrirão minhas falhas.

Nestes dias de festa, a semana em que o 24 de outubro se insere, presto humilde e individual homenagem à cidade que invadi naquele agosto de 1963, com uniforme do Liceu. Beijo seu cenário e seu passado de valorosos construtores, sejam eles de casas e ruas, de educação e finanças.

Ou ainda de poesia, música, pincel e tinta. Livros!



Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.